O encontro, que faz parte de um processo mais amplo de auscultação, teve como objetivo recolher opiniões e contribuições para a elaboração de um relatório nacional sobre o setor. Participaram representantes de centrais sindicais, como a UGT e a ONT-STEP, bem como membros da sociedade civil, incluindo a Federação das Organizações Não Governamentais (FONG).

Entre as principais preocupações levantadas, destaca-se a alegada falta de liberdade de imprensa. Representantes sindicais afirmam que os conteúdos divulgados pelos órgãos de comunicação social, sobretudo os públicos, continuam condicionados por interesses políticos.
“Desde logo digo que não. A comunicação social em São Tomé e Príncipe não é livre”, afirmou um dos intervenientes, sublinhando que a linha editorial tende a acompanhar “as cores de quem governa”.
Costa Carlos | Secretário Geral da UGT

essa prática compromete o papel da comunicação social enquanto instrumento de informação, educação e pluralidade democrática.
Os sindicatos defendem que, sendo a comunicação social financiada pelos contribuintes, deve garantir espaço para todas as vozes, sem restrições ou censura indireta.
“Não me podem impedir de dizer aquilo que sinto. Quem se sentir lesado tem o direito de recorrer aos meios legais, mas não se pode limitar a expressão”. Costa Carlos | Secretário Geral da UGT
Outro ponto crítico levantado foi a existência de autocensura e condicionamentos editoriais. De acordo com os participantes, há uma tendência de evitar conteúdos que possam ser interpretados como desfavoráveis a determinadas forças políticas.
Essa realidade, segundo os intervenientes, afeta inclusive programas informativos e limita o debate público. Sindicalistas relataram dificuldades em divulgar informações dirigidas aos trabalhadores, alegando falta de espaço ou bloqueios indiretos. Apesar das críticas ao sistema, também houve apelos à responsabilidade individual dos profissionais da comunicação social. Foi defendido que jornalistas e técnicos devem exercer a profissão com base na formação académica e nos princípios éticos, independentemente de pressões externas.
“O profissional deve responder pelo seu trabalho. Tal como um médico responde pelos seus atos, o jornalista também deve assumir a responsabilidade pelo serviço que presta à sociedade”.
Costa Carlos | Secretário Geral da UGT

Representantes da sociedade civil reforçaram a necessidade de melhorias estruturais no setor. Para o presidente da FONG, é urgente investir na qualidade da informação e garantir uma liberdade de imprensa mais efetiva.
Segundo ele, persistem falhas no funcionamento dos órgãos de comunicação, incluindo falta de profissionalismo em alguns casos e limitações no acesso à informação de interesse público.
“É preciso fazer mais e melhor, para que a população possa confiar e compreender plenamente as informações que recebe”. Cristiano Costa | Presidente da FONG-STP

Questionados sobre a possível divisão da comunicação social entre tendências políticas, os representantes reconheceram que o fator humano influencia o setor. No entanto, defenderam que os profissionais devem separar convicções pessoais do exercício da função jornalística.
“Os jornalistas devem colocar o profissionalismo acima de qualquer inclinação política, garantindo isenção e credibilidade”. Cristiano Costa | Presidente da FONG-STP
O Conselho Superior de Imprensa confirmou que a reunião integra uma série de consultas com diferentes atores sociais. O objetivo é produzir um relatório abrangente sobre o estado da comunicação social no país.
De acordo com um dos responsáveis presentes, as contribuições recolhidas revelam preocupações comuns: necessidade de maior espaço para debate, mais conteúdos informativos relevantes e redução da influência política nos órgãos públicos. O documento final deverá apresentar não apenas um diagnóstico do setor, mas também recomendações concretas para melhorar a qualidade, a independência e o serviço público de informação em São Tomé e Príncipe.
O debate em torno da liberdade de imprensa surge num momento em que cresce a exigência por maior transparência e participação cidadã. Especialistas consideram que uma comunicação social independente é fundamental para o fortalecimento da democracia, permitindo o escrutínio do poder e a circulação livre de ideias.

À medida que o relatório do Conselho Superior de Imprensa se aproxima da conclusão, aumenta também a expectativa de que as recomendações resultem em mudanças concretas num setor considerado estratégico para o desenvolvimento do país.
Por: Ednel Abreu

