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Moçambique: Moçambique prepara participação na III cimeira Rússia-África com foco no investimento e na industrialização

Maputo e Moscovo procuram aprofundar a cooperação nos sectores da energia, agricultura, segurança e infra-estruturas, numa parceria que remonta ao período da luta de libertação nacional.



Moçambique prepara-se para participar na III Cimeira Rússia-África, prevista para os dias 28 e 29 de Outubro de 2026, em Moscovo, Federação Russa, com o objectivo de reforçar as relações bilaterais, atrair investimentos e identificar novas oportunidades de cooperação económica e tecnológica.


A participação moçambicana, confirmada pelo Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, na sequência do convite do seu homólogo russo, Vladimir Putin, enquadra-se nos esforços do Governo para diversificar as parcerias internacionais, promover a industrialização e acelerar o desenvolvimento económico do país.


O anúncio foi feito pelo ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov, durante a sua visita oficial a Maputo, a 9 de Julho de 2026, ocasião em que foram discutidas perspectivas de aprofundamento da cooperação entre os dois países.


A cimeira deverá reunir chefes de Estado e de Governo de vários países africanos, bem como representantes dos sectores público e privado, académicos e especialistas, constituindo uma oportunidade para o estabelecimento de parcerias e a identificação de projectos concretos de interesse mútuo.


Relações históricas sustentam a cooperação bilateral


As relações entre Moçambique e a Rússia têm raízes históricas, remontando ao período da luta de libertação nacional, quando a então União Soviética prestou apoio à Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) na luta contra o colonialismo português.


Após a proclamação da Independência Nacional, a 25 de Junho de 1975, Moscovo reconheceu o novo Estado moçambicano, dando continuidade às relações de cooperação nos domínios político, militar, técnico e económico.


Ao longo dos anos, os dois países mantiveram contactos diplomáticos e desenvolveram mecanismos de cooperação em diferentes áreas, com destaque para a formação de quadros, a segurança e o intercâmbio de experiências.


Esta herança histórica constitui uma das bases da actual parceria, que procura evoluir da solidariedade política para uma cooperação económica capaz de responder aos desafios contemporâneos de Moçambique.


Energia, agricultura e indústria entre as prioridades


No quadro da preparação da cimeira, a energia e os hidrocarbonetos destacam-se entre as áreas com potencial para o aprofundamento da cooperação. Durante a visita de Sergei Lavrov a Maputo, o Presidente Daniel Chapo manifestou interesse no estabelecimento de uma parceria entre a Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH) e a empresa russa Gazprom, com vista à exploração de oportunidades no sector do gás natural.


A concretização de iniciativas nesta área poderá contribuir para o desenvolvimento de competências técnicas nacionais, a mobilização de investimento e o aproveitamento dos recursos energéticos do país, com potencial para gerar receitas e estimular outras actividades económicas.


A agricultura e a exploração de recursos minerais constituem igualmente sectores de interesse. A aproximação a empresas russas poderá abrir espaço para investimentos, transferência de tecnologia, modernização dos processos produtivos e criação de oportunidades de emprego.


No domínio da industrialização, a cooperação poderá favorecer a transformação local das matérias-primas, a instalação de unidades de produção e o desenvolvimento de infra-estruturas de apoio à actividade económica.


Entre as iniciativas de interesse empresarial consta a possibilidade de instalação de uma fábrica de montagem de camiões da marca KamAZ em Moçambique. Caso avance, o projecto poderá contribuir para a criação de postos de trabalho, a formação de técnicos nacionais e o fortalecimento da capacidade industrial do país.


A posição geográfica de Moçambique, com acesso ao Oceano Índico e ligações aos mercados da África Austral, representa também uma oportunidade para o desenvolvimento de serviços de transporte, logística e distribuição regional.


Cooperação na segurança e no combate ao terrorismo


A segurança constitui outra dimensão relevante das relações entre Maputo e Moscovo, sobretudo no contexto dos desafios associados ao terrorismo na província de Cabo Delgado.


Durante a sua visita a Moçambique, Sergei Lavrov manifestou a disponibilidade da Rússia para responder aos pedidos moçambicanos de apoio no combate à ameaça terrorista, incluindo possibilidades de formação de pessoal e fornecimento de equipamento militar.


Por sua vez, a ministra dos Negócios Estrangeiros e Cooperação de Moçambique, Maria Manuela dos Santos Lucas, destacou a importância da cooperação bilateral neste domínio.


O aprofundamento desta colaboração poderá contribuir para o reforço das capacidades nacionais de segurança, tendo em conta as necessidades e as prioridades definidas pelas autoridades moçambicanas.


A estabilidade e a segurança são igualmente relevantes para a actividade económica, na medida em que criam condições para a protecção das populações, a recuperação das zonas afectadas pelo terrorismo e a continuidade dos investimentos públicos e privados.


Diversificação de parcerias e ganhos económicos


A participação na III Cimeira Rússia-África surge num contexto em que Moçambique procura ampliar as suas relações económicas internacionais e criar condições para uma maior participação nacional na transformação dos recursos naturais.


Entre os principais ganhos que o país poderá procurar alcançar estão a atracção de investimento directo estrangeiro, o acesso a tecnologias, a formação de mão-de-obra qualificada e o estabelecimento de parcerias empresariais que contribuam para a produção nacional.


A cooperação poderá igualmente favorecer a diversificação dos mercados, reduzir a concentração das relações comerciais em parceiros tradicionais e ampliar as oportunidades de exportação de produtos moçambicanos.


Outro aspecto relevante prende-se com a possibilidade de reforçar o conteúdo local dos projectos, promovendo a contratação de trabalhadores nacionais, o envolvimento de empresas moçambicanas e a criação de cadeias de fornecimento internas.


Contudo, os benefícios dependerão da concretização de acordos, da viabilidade económica dos projectos, das condições de financiamento e da capacidade de assegurar que os investimentos produzam resultados sustentáveis para a economia nacional.


Neste contexto, a Comissão Intergovernamental de Cooperação Económica e Científico-Técnica entre Moçambique e a Rússia constitui um dos mecanismos para a identificação de prioridades e o acompanhamento das iniciativas bilaterais.


Moçambique procura reforçar a sua presença internacional


Para além da dimensão económica, a participação moçambicana na cimeira representa uma oportunidade para aprofundar o diálogo diplomático e reforçar a presença do país nos fóruns internacionais.


Moçambique e Rússia mantêm relações diplomáticas e contactos em organizações multilaterais, incluindo a Organização das Nações Unidas, onde o diálogo entre os dois países pode contribuir para a discussão de matérias de interesse comum.


A diversificação das parcerias internacionais permite a Moçambique alargar as suas opções de cooperação, preservando a sua soberania e a capacidade de definir prioridades de acordo com os interesses nacionais.


A III Cimeira Rússia-África poderá, assim, servir de plataforma para a apresentação das prioridades de desenvolvimento de Moçambique, a realização de encontros empresariais e a negociação de iniciativas nos sectores considerados estratégicos.


O principal desafio será transformar as oportunidades identificadas em acordos concretos, investimentos produtivos e projectos capazes de gerar emprego, aumentar a capacidade de produção nacional e contribuir para a independência económica do país.


Por Elton Mabjaia