A literacia financeira está a ganhar espaço como uma ferramenta essencial para o desenvolvimento das comunidades rurais de São Tomé e Príncipe. Após cinco meses de formação, 82 agricultores, comerciantes e pequenos empreendedores das comunidades de São José, Bem Posta, São Nicolau e Nova Moca, no distrito de Me-Zóchi, concluíram uma capacitação destinada a melhorar a gestão dos seus rendimentos e fortalecer os seus negócios.
Durante a cerimónia de encerramento, o diretor da ONG Zatona Dil, Dionísio Amaral, explicou que o projeto nasceu da constatação de que muitos agricultores obtinham rendimento com a venda de produtos como cacau, café, pimenta, baunilha e hortícolas, mas enfrentavam dificuldades para investir e melhorar as suas condições de vida devido à falta de conhecimentos sobre gestão financeira.
Segundo Dionísio Amaral, o objetivo da formação foi incentivar uma mudança de mentalidade.
"Queremos mostrar que as comunidades não devem esperar apenas por apoios externos. Mesmo com pequenos rendimentos é possível criar poupanças, organizar recursos e investir nos próprios negócios. Em algumas comunidades já começam a surgir iniciativas de crédito solidário, onde os membros criam um fundo comum para financiar pequenos investimentos."

Os participantes reconhecem que a formação trouxe mudanças concretas na forma de administrar o dinheiro. O agricultor José de Carvalho, conhecido por Dudu, afirmou que aprendeu a controlar despesas, calcular lucros, definir um salário para si próprio e criar hábitos de poupança.
"Antes fazíamos tudo sem registar as despesas. Hoje anotamos tudo, sabemos onde estamos a gastar, onde podemos melhorar e isso tem ajudado o nosso negócio a crescer"

Na cerimónia, o Ministro da Economia e Finanças defendeu que a literacia financeira é um dos pilares para o desenvolvimento do empreendedorismo no país. Segundo o governante, gerir corretamente os recursos é tão importante quanto conseguir financiamento.
"Empreender não é apenas decidir abrir um negócio. É preciso saber gerir o investimento, poupar e aplicar corretamente os recursos para garantir que o negócio seja sustentável."
O ministro acrescentou que o Governo pretende continuar a facilitar o acesso dos pequenos produtores a microcréditos e promover a inclusão financeira através da expansão das carteiras digitais (mobile money), reduzindo a dependência do dinheiro físico e aumentando a segurança das transações.
"Estamos a trabalhar para disponibilizar uma carteira digital através da CST. Com essa ferramenta, as pessoas poderão guardar e movimentar o seu dinheiro de forma mais segura e prática."
O coordenador da Oikos em São Tomé e Príncipe, Rogério Rosa, explicou que a organização identificou a necessidade de trabalhar a educação financeira durante a implementação de projetos nas comunidades rurais e piscatórias.
"Percebemos que era necessário ajudar as famílias a gerir melhor o dinheiro, fazer poupança, controlar despesas e investir nos seus negócios. A reação dos participantes foi muito positiva e já observamos mudanças concretas nos seus hábitos financeiros."
O formador Manuel Lopes considerou que a evolução dos participantes foi significativa ao longo da capacitação.
"No início avaliámos o nível de conhecimentos dos formandos. Hoje estão preparados para gerir melhor os seus negócios, tomar decisões financeiras e administrar investimentos de forma responsável."

A formação constitui um projeto-piloto desenvolvido pela Oikos e pela Zatona Dil e poderá servir de base para futuras iniciativas de educação financeira em outras comunidades de São Tomé e Príncipe, reforçando a inclusão financeira e promovendo o desenvolvimento económico local.